domingo, 30 de setembro de 2012

Awakening.



O despertar dá-se num mero instante. Tão rápido como o clicar de um interruptor. Mas a perceção de onde nos encontramos é mais lenta. Meros instantes perdidos na procura de uma realidade que tenha noção. Onde estou?

O aroma do teu cabelo inunda-me. O calor do teu corpo aquece-me. A suavidade da tua pele toca-me.
Descubro o traço identificativo deste novo dia. É um daqueles poucos de descanso. Dá-me uma tranquilidade aconchegante saber que hoje não sou regido pelas areias do tempo. Deixo-me ficar, observando de olhos encerrados.

A cama suporta-nos. O lençol cobre-nos. A janela abriga-nos.

Ouço lá fora a chuva que cai ritmada. Atira-se de forma mortífera contra o vidro como se o conseguisse ultrapassar. Mas não passa de uma infrutífera tentativa. Não invade o saboroso calor que encontro no abraço em que te tenho. Aperto mais, sentindo a tua face no meu peito.

Tu dormes. Eu não durmo. O ambiente dorme.

Abro os olhos e aprecio a beleza do teu dormir. Esboço um ténue sorriso. Deposito um beijo na tua testa. Permaneço neste limbo delicioso de conforto, calor e cumplicidade esquecendo o rígido controlo temporal que o contador de ciclos apresenta.

A tua mão mexe. A minha mão mexe. Ambas se procuram.

Despertas silenciosa, quase muda. Os teus lábios expressam o bom dia por ti. Tens a boca quente. O corpo quente. A mão quente. Junto com a minha se entrelaçam. Tocam-se. Dançam a sua dança. 

A fria chuva cai. O frio vento sopra. O frio frio se expande. Lá fora. Aqui dentro não existe Inverno. É apenas um habitat regulado. Por nós. 

O teu corpo move-se. Procura o seu encaixe no meu. Mãos entrelaçadas. Corpos unidos. A perfeição é atingida. É nossa.


Fox

sábado, 29 de setembro de 2012

Red Hood



Era uma vez…

Uma jovem mulher que percorria o belo parque no centro da cidade. De singelas formas definida, envergava um vestido de alças preto curto e um casaco vermelho com capuz. As meias de ligas negras quase expostas complementavam o vestido, as botas de estilo militar rematavam o final da indumentária. A sua moda era só sua. Tão distante dos restantes, como o vermelho do seu casaco se afastava do verde das árvores.

Calhava ser altura do Outono. Quando as árvores ficam castanhas e os chuviscos podem surgir sem serem previstos. O casaco provava assim melhor a sua utilidade que o previsto. Mas ela não se incomodava com a opinião de terceiros. Vivia num mundo só dela. O capuz mantinha longe de olhares indiscretos, o negro dos seus cabelos, o negro dos seus olhos, o negro da sua personalidade, numa poça de escuridão que lhe esconde todo o rosto. É assim que gostava de ser, afastada do que será normal segundo a sociedade.

O seu trajeto atravessava o parque a caminho da casa da sua avó. Personagem distinta no seio da família, possuía uma faceta que apenas ela conhecia. Era muito entendida nas questões nebulosas do mundo do esoterismo. Contava sempre belas e negras histórias que ela tanto apreciava ouvir. Era a caminho de mais uma dessas atrativas manhãs bem passadas, que ela se deslocava.

Mas as árvores muito camuflam por entre os seus ramos e folhas. Não precisando ele, apesar do tamanho, de muito sacrifício para se manter longe de olhares. Gostava de a apreciar ao longe, como um qualquer lobo aprecia a sua presa. Observando com ardor a distinta mancha vermelha que caminhava solitária. Algo nela lhe atraia o olhar e soltava a sua luxúria. Apetecia-lhe “comer” aquele corpo, tocando com as suas enormes mãos calejadas, a quente branca pele que ela exibia. A contaminação era tão vasta, que quase lhe apetecia uivar de desejo.

Naquele dia sentia-se especialmente contaminado. Transbordando esse vírus através de cada poro da sua peluda pele. Era uma força animal mais poderosa do que a sua mente. Anulava a sua racionalidade e soltava-lhe os negros instintos. Criando um rápido rascunho de plano mental, lançou-se numa corrida de antecipação ao trajeto que já sabia que ela iria ter. Chegaria ao destino um pouco antes e surpreenderia a sua presa. Resultasse isso da forma que resultasse, não passaria daquele dia. 

Inocentemente, ela caminhava o seu caminho, calcando de forma decidida, as caídas folhas castanhas que repousam no chão. Estalavam sobre as suas botas, criando um complemento sonoro ao ligeiro vento que corria no ar. Já bem perto do fim do parque, conseguia ver lá ao longe a casa da sua avó. Mas sem nada ver na realidade, pois desconhecia o que lá dentro se passava. 


Fox

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

One more


When we get old we see the end of many things.
No one is prepared for this, but it just happen.
Yesterday was one of these days.
One more black day, when people dress black clothes and put black masks.
The clock ticks life away from everyone.

Sometimes we live our lives without knowing some people.
But we should knew them, because they are relatives.
The truth is different. We are far away in our proximity.
We only have a slight glimpse of some faces in some special gathering.
And that is not enough to spill some tears when the time is right.

Is this correct or am i cold as ice?



Fox

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

The Glass House VIII




Apesar do frio que se faz sentir nesta noite, ainda sinto o meu corpo quente. Aquele beijo ardente tinha aquecido o meu corpo, os meus lábios e os dele. Ansiava o calor do seu corpo no meu e o toque que apagasse o fogo que agora me consumia.

Noutro dia poderia apreciar a beleza daquela falésia, mas hoje não era aí que os meus olhos se iriam prender. Subimos as escadas junto à falésia. No topo da mesma, encontramos a sua casa. Bela casa, por sinal. Repleta de vidro, como eu adoro. Hoje, a casa está abençoada pelo reflexo da lua e das estrelas. Dá-me logo outra inspiração para soltar a imaginação…

Como se tem mostrado, continua um cavalheiro, abre-me a porta e convida-me a entrar.

- Se quiseres fazer o favor.

- Obrigada. Sempre gentil. Bela casa.

- Gostas? Fui eu que a desenhei. Todo o seu interior está de acordo com os meus gostos. Foi feita à minha medida.

- Com que então Arquiteto? Interessante.

- Sim sou. Mas a conversa pode ficar para depois. Deves estar gelada. Deixa-me levar-te à banheira para tomares um belo banho quente.

Conduz-me pela casa, sempre com a sua mão na minha. Gosto que tenha assumido o controlo. Passamos pelos vários corredores, cada um mais elegante e sofisticado que o anterior. Só com isto parece que já o conheço há anos. Ele faz questão de me mostrar a casa, a sua intimidade, algo tão pessoal. Faz-me sentir uma privilegiada. Mas quantas mulheres terá ele trazido para aqui?

A casa é muito bonita, mas falta aquele toque feminino que a tornaria perfeita. Cada novo canto, é uma agradável surpresa. Os pormenores cheios de elegância e requinte, sem ser demasiado ostensivo. Leva-me para o seu quarto, donde é possível ver a baía onde estivemos há pouco. A paisagem é inebriante. Puxa-me e mostra-me a sua banheira redonda. Linda, de se tirar o fôlego. Está embutida no chão de mármore preto, junto a outra grande janela onde é possível ver o mar e certamente um deslumbrante pôr-do-sol. Banhar-me enquanto aprecio as estrelas, será mais um episódio inesquecível.

Olho-o naqueles olhos azuis intrigantes que me despem com o olhar. Arrepia-me a espinha.

- Tens aqui tudo o que é necessário para o teu banho. Vou-te deixar à vontade enquanto tomo um duche no andar de baixo. Fica à vontade.

- Obrigada. Até já…

Antes de ir embora, toca no interruptor que acende pequenas luzes no teto que brilham e reduz a restante iluminação, tornando o ambiente mais acolhedor. Vejo-o a sorrir por detrás da ligeira escuridão e deixa-me sozinha. Não era mal pensado partilhar aquele banho com ele, mas por outro lado acho tão carinhoso o seu gesto. Revela-se um verdadeiro cavalheiro.

Ligo a torneira e deixo a água a correr. Atiro para o interior da banheira sais de banho. A banheira cobre-se de espuma. Enquanto não enche por completo, desaperto o vestido e deixo-o cair sobre os meus pés. E depois a lingerie. Fecho a torneira, entro naquela banheira de sonho e envolvo-me na espuma. A água está bastante quente, tão quente como o meu corpo. Passo a esponja pelo corpo, que se encontra anestesiado, na tentativa de o despertar. Encosto a cabeça e começo a divagar. Passo a mão pela minha boca, e ainda a sinto ligeiramente inchada.

O beijo ainda permanecia nos meus lábios. Revejo mentalmente o nosso primeiro contacto. Os meus lábios aproximaram-se dos dele suavemente como que a provocá-lo e ele correspondeu. Beijei-lhe primeiro o lábio superior, depois o inferior. Os nossos lábios uniram-se diretamente e chupei os dele como se de uma fruta madura se tratasse. Depois foram mordiscados e levemente acariciados com a língua. Um beijo que inicialmente era delicado e tranquilo, começou a ganhar vida e a tornar-se mais intenso. As nossas línguas juntaram-se a um ritmo alucinante, como que a colmatar a fome que nos consumia. Um beijo delicioso, animal e perigoso.

Volto a mim, entorpecida pela viagem que fiz mentalmente. E porquê imaginar, se poderia repetir? E fazer ainda melhor? Mergulho a cabeça na água quente e levanto-me decidida a prolongar ao máximo esta noite com o homem que me esperava noutro ponto da casa. Seco o meu corpo, desejando que fossem as suas mãos a deixar-me mais suada. Volto a colocar o vestido. Seco o cabelo, dou um jeito deixando-o selvagem. Procuro na minha pochete o rímel e o bálsamo. Passo o rímel nas pestanas, coloco bálsamo nos lábios para os realçar e os hidratar. Olho-me no grande espelho que tenho à minha frente e tenho um ótimo aspeto. Oiço uma música de fundo, ele já deve estar à minha espera. Desço de encontro ao homem que será meu por esta noite.

- Tiago?

- Aqui, na sala.

Ele trocou de roupa, está agora com um aspeto mais descontraído. De cabelo molhado e agradavelmente perfumado. Encontra-se sentado relaxadamente no seu sofá negro em L, bem grande e cheio de almofadas, no meio da sala aconchegante. Os quadros nas paredes poderiam ser apaixonantes, mas neste momento não têm qualquer interesse. Olha-me e sorri daquele jeito gostoso de ver.

- Já estou bem mais revigorada. Hum… música clássica. Beethoven?

- Vivaldi, Le quattro stagioni, "L'inverno". Gostas?

- Adoro violinos, mas num ritmo mais contemporâneo. No entanto, dá bom ambiente.

- Sim dá mesmo. Algo neste género de música possui um encanto para além do explicável. Não serão necessárias palavras para atingir um significado. Queres beber algo?

- Pode ser, faço-te companhia.

Prepara a minha bebida. Na sala está uma lareira acesa com a madeira a arder. É como sinto-me neste momento… a arder de desejo. Não o posso demonstrar, afinal ele vai ter que suar um pouco antes de me ter.

- Aqui tens.

- Obrigada. Já é a segunda bebida que me ofereces hoje. Planeias-me embebedar?

- Oh nada disso. Apenas cortesia.

- Escusas de corar. Estou a meter-me contigo. Diz-me lá o que fazia um homem assim charmoso sozinho naquele bar?

- O que faz sempre. Vê os outros a viver a vida.

- Ver? Porque não também a vives?

- Apercebi-me nestes últimos anos, que é virtualmente impossível viver só e ser feliz. Ou pelo menos para mim assim o será.

- Então e estas só porquê?

- Porque aquela que amei se foi. Desde ai mais nenhuma acendeu o que se apagou em mim.

- Compreendo bem. São situações difíceis. Mas sabes, a vida continua. Tens que encontrar um meio-termo.

- Eu sei. A forma que encontrei foi esta. A solidão. Mas e tu? Qual a tua história?

- É uma dolorosa da qual não gosto muito de falar. Mas com ela aprendi a viver para mim. E gosto.

- Parece-me que não serei o único com cicatrizes...

Ele volta a despertar o passado em mim. Por mais que não queira, o passado assombra-me e, além disso, magoa-me. Não quero que isso estrague a nossa noite.

- O passado fica lá atrás. Ou trouxeste-me a tua casa para partilharmos histórias tristes?

- Bem, não. Trouxe para tomarmos um banho quente e ficar mais à vontade. Para prolongar o que iniciaste...

Ele aproxima-se de mim, sem hesitar. Já sinto o coração aos pulos, os lábios a inchar e sabe-se lá mais o quê a querer dar de si…


Fox + Moon

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

The Glass House VII




Sinto o corpo gelado enquanto caminho para casa. Preciso de um duche quente. A noite está bela mas fria. Já fiz loucuras anteriormente, mas desconheço o que tem esta mulher para me despertar assim iniciativas no primeiro instante. Mas o sonho está aqui e agora, acabe como acabar, tenho que o saborear.

É rápida a ascensão pelas escadas adjacentes à falésia. A minha casa fica num local de sonho. Sendo esse o primeiro pensamento que me ocorre quando chego. Estilo simples mas tremendamente moderno. Apresenta-se envolvida por muito vidro. O quarto possui uma vista de cortar a respiração. Espero que seja do seu agrado.

Abro-lhe a porta, convidando a sua entrada no meu espaço.

- Se quiseres fazer o favor.

- Obrigada. Sempre gentil. Bela casa.

- Gostas? Fui eu que a desenhei. Todo o seu interior está de acordo com os meus gostos. Foi feita à minha medida.

- Com que então Arquiteto? Interessante.

- Sim sou. Mas a conversa pode ficar para depois. Deves estar gelada. Deixa-me levar-te à banheira para tomares um belo banho quente.

Encaminho-a pelos labirintos tão meus, enquanto lhe vou mostrando alguns aspetos de relevo pelo percurso até à suite. Abro a portada dupla do quarto no segundo andar, abrindo o meu espaço mais reservado. É grande, espaçoso, espartano na decoração, mas tão identificativo da minha identidade. Ela divaga pelas minhas coisas, observando cada detalhe. Sinto-me exposto, mostrando assim a minha intimidade, mas é agradável. O quarto é rodeado por vidro a oeste, permitindo assim uma panorâmica brutal do oceano. Adjacente ao quarto e apenas separado por uma parede de vidro fosco, fica a banheira embutida no chão de mármore negro. A partir dela se consegue, pelas amplas janelas, uma deliciosa visão desta noite tão estrelada.

O seu espanto é notório. Ainda que bem disfarçado, aprecia bastante o “meu mundo”. E algo lhe reluziu no olhar quando lhe mostrei a banheira.

- Tens aqui tudo o que é necessário para o teu banho. Vou-te deixar à vontade enquanto tomo um duche no andar de baixo. Fica à vontade.

- Obrigada. Até já…

Desço as escadas em direção à casa de banho de serviço. O sorriso sacana está no meu rosto. A mulher mais deslumbrante que já vi, está neste momento completamente nua na minha banheira, a tomar um banho quente. Humm… Como isso me solta a imaginação…

O meu duche foi rápido. Mas não a vejo pelo andar de baixo, ainda não deve ter terminado. Entro na sala. Dirijo-me à lareira e trato de colocar a madeira a crepitar. Ligo a aparelhagem com um belo som de música ambiente. Preparo uma bebida e sento-me no sofá, apreciando a beleza de toda esta situação.

A minha espera não é longa mas ainda consigo apreciar algumas músicas. Ouço passos quase silenciosos que descem pela escada.

- Tiago?

- Aqui, na sala.

Ela chega radiante, caminhando da sua forma tão felina. Descalça, envergando apenas o seu vestido e mesmo sem estar tão produzida agora para uma saída, é linda! Sorrio para ela, olhando bem no fundo daqueles olhos verdes.

- Já estou bem mais revigorada. Hum… música clássica. Beethoven?

- Vivaldi, Le quattro stagioni, "L'inverno". Gostas?

- Adoro violinos, mas num ritmo mais contemporâneo. No entanto, dá bom ambiente.

- Sim dá mesmo. Algo neste género de música possui um encanto para além do explicável. Não serão necessárias palavras para atingir um significado. Queres beber algo?

- Pode ser, faço-te companhia.

Senta-se no sofá, enquanto preparo a bebida. O seu olhar está fixo na ardente madeira que queima e estala, libertando um calor reconfortante para uma fria noite como esta. Estou eufórico com toda a situação. É bom demais.

- Aqui tens.

- Obrigada. Já é a segunda bebida que me ofereces hoje. Planeias-me embebedar?

- Oh nada disso. Apenas cortesia.

- Escusas de corar. Estou a meter-me contigo. Diz-me lá o que fazia um homem assim charmoso sozinho naquele bar?

- O que faz sempre. Vê os outros a viver a vida.

- Ver? Porque não também a vives?

- Apercebi-me nestes últimos anos, que é virtualmente impossível viver só e ser feliz. Ou pelo menos para mim assim o será.

- Então e estas só porquê?

- Porque aquela que amei se foi. Desde ai mais nenhuma acendeu o que se apagou em mim.

- Compreendo bem. São situações difíceis. Mas sabes, a vida continua. Tens que encontrar um meio-termo.

- Eu sei. A forma que encontrei foi esta. A solidão. Mas e tu? Qual a tua história?

- É uma dolorosa da qual não gosto muito de falar. Mas com ela aprendi a viver para mim. E gosto.

- Parece-me que não serei o único com cicatrizes...

O seu semblante diminuiu a radiância acusando a mágoa que a história deve ter causado. Gerando em mim algo. Apetecia-me tocar-lhe a face. Protegê-la com o meu abraço. Escudá-la do sofrimento. 

- O passado fica lá atrás. Ou trouxeste-me a tua casa para partilharmos histórias tristes?

- Bem, não. Trouxe para tomarmos um banho quente e ficar mais à vontade. Para prolongar o que iniciaste...

O gesto estava imaginado. A vontade latente. A iniciativa preparada. Aproximei-me decididamente, unindo os meus lábios com os seus. A minha fome explodia de forma voraz. Estava louco para sentir novamente o seu sabor. Mas não era apenas os seus lábios que queria provar...


Fox + Moon