sábado, 18 de maio de 2013

Reality


Alguns textos deveriam ser de leitura obrigatória por forma a que algumas verdades superiores fossem compreendidas e tornadas elementos constituintes do senso comum. É este um conceito que cada vez mais me assiste o espírito mas que não conseguiria descrever nesta concepção de plenitude e perfeição proposta por Balzac. Aquelas que tenham a ousadia de ler o texto na integra, deliciem-se com o que vos espera, se já lá não estiverem...


“Tome a mesma moça aos 20 e aos 30 anos. No segundo momento ela será umas sete ou oito vezes mais interessante, sedutora e irresistível do que no primeiro. Ela perde a frescura juvenil, é verdade. Mas também o ar inseguro de quem ainda não sabe direito o que quer da vida, de si mesma e de um homem. Não sustenta mais aquele ar ingénuo, uma característica sexy da mulher de 20. 

Só que isso é compensado por outros atributos encantadores que reveste a mulher de 30. Como se conhece melhor, ela é muito mais autêntica, centrada, certeira no trato consigo mesma e com o seu homem. Aos 30, a mulher tem uma relação mais saudável com o próprio corpo e orgulho da sua vagina, das suas carnes sinuosas, do seu cheiro cítrico. Não se chateia mais com nada disso. Na verdade, ela quer aborrecer-se o menos possível. Está interessada em absorver do mundo o que lhe parecer justo e útil, ignorando o que for feio e baixo-astral. Quer é ser feliz. 

Se o seu homem não gosta dela do jeito que é, que vá procurar outra. Ela só quer quem a mereça. Aos 30 anos, a mulher sabe vestir-se. Domina a arte de valorizar os pontos fortes e disfarçar o que não interessa mostrar. Sabe escolher sapatos e acessórios, tecidos e decotes, maquilhagem e o corte de cabelo. Gasta mais porque tem mais dinheiro. Mas, sobretudo, gasta melhor. E tem gestos mais delicados e elegantes. Aos 30, ela carrega um olhar muito mais matador quando interessa matar. E finge indiferença com muito mais competência quando interessa repelir. Ela não é mais parvinha. 

Não que fique menos inconstante. Mulher que é mulher,se pudesse, não vestiria duas vezes a mesma roupa nem acordaria dois dias seguidos com o mesmo humor. Mas, aos 30, ela já sabe lidar melhor com esse aspecto peculiar da sua condição feminina. E poupa (excepto quando não quer) o seu homem desses altos e baixos hormonais que aos 20 a atingiam e quem mais estivesse por perto, irremediavelmente. Aos 20, a mulher tem espinhas. Aos 30, tem pintas, encantadoras trilhas de pintas, que só sabem mesmo onde terminam uns poucos e sortudos escolhidos. 

Sim, aos 20 a mulher é escolhida. Aos 30, é ela quem escolhe. E não veste mais roupa interior que não a favorece. Só usa lingeries com altíssimo poder de fogo. Também aprende a perfumar-se na dose certa, com a fragrância exacta A mulher de 30, mais do que aos 20, cheira bem, dá gosto de olhar, captura os sentidos, provoca fome. Aos 30, ela é mais natural, sábia e serena. Menos ansiosa, menos estagnada. 

Até os seus dentes parecem mais claros; os seus lábios, mais reluzentes; a sua saliva, mais potável. E o brilho da pele não é a oleosidade dos 20 anos, mas pura luminosidade. Aos 20 ela rói as unhas. Aos 30, constrói para si mãos plásticas e perfeitas. Ainda desenvolve um toque, ao mesmo tempo, firme e suave. Ocorre algo parecido com os pés, que atingem uma exactidão estética insuperável. Acontece alguma coisa também com os cílios, o desenho das sobrancelhas, o jeito de olhar. Fica tudo mais glamouroso, mais sexualmente arguto. 

Aos 30, quando ousa, no que quer que seja, a mulher costuma acertar em cheio. No jogo com os homens já aprendeu a actuar no contra-ataque. Quando toma a iniciativa é para liquidar a factura. Ela sabe dominar o seu parceiro sem que ele se sinta dominado. Mostra a sua força na hora certa e de forma subtil Não para exibir poder, mas para resolver tudo a seu favor antes de chegar ao ponto de precisar exibi-lo. Consegue o que pretende sem confrontos inúteis. Sabiamente, goza das prerrogativas da condição feminina sem engolir sapos supostamente decorrentes do fato de ser mulher.”

Honoré de Balzac


Fox

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