terça-feira, 22 de outubro de 2013

Responsibility

Ela canta, pobre ceifeira

Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anónima viuvez,

Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.

Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões pra cantar que a vida.

Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente ‘stá pensando.
Derrama no meu coração
a tua incerta voz ondeando!

Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso!
Ó céu! Ó campo! Ó canção! A ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro!
Tornai Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!

Fernando Pessoa


Como sinto em tantas vezes e mais vezes ainda, aquela vontade de não sentir o malfadado peso da responsabilidade sobre os meus cansados ombros. Verga-me as costas agravando o laborioso trabalho de ultrapassar as enormes pedras que no caminho surgem. Entre crateras e pedras, parece que caminho décadas e décadas sem interrupção, quando o que queria era poder voar. Nada fará sentido se for apenas assim. Não pode ser assim. Mais terá de existir.

Quero voar. Voar de mão dada, sorriso nos lábios e brilho nos olhos. 


Fox

7 comentários:

  1. Inspirado Fox, muito bem. Gostei. Continua a voar com sorriso nos lábios e brilhos nos olhos.
    Também gosto muito da poesia de Fernando Pessoa, ele e heterónimos, e de outros autores dessa época como Mário de Sá Carneiro. Foi o que me marcou em Português no secundário.
    Gosto muito do poema do Fernando Pessoa "Liberdade" e também "O amor". Do Mário de Sá Carneiro, o poema que me marcou quando no secundário o estudei foi o poema "Fim".

    "Quando eu morrer batam em latas,
    Rompam aos saltos e aos pinotes,
    Façam estalar no ar chicotes,
    Chamem palhaços e acrobatas!

    Que o meu caixão vá sobre um burro
    Ajaezado à andaluza...
    A um morto nada se recusa,
    Eu quero por força ir de burro."
    Mário de Sá-Carneiro

    Boa continuação de dia.
    Um sorriso para si.

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    1. Obrigado, Ana.

      Este poema de Pessoa diz-me imenso.

      "Ah, poder ser tu, sendo eu!
      Ter a tua alegre inconsciência,
      E a consciência disso!"

      Fabulosa, a ideia de ter uma consciência inconscientemente alegre.

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    2. É muito bonito mesmo. Fazendo uma análise detalhada deste poema podemos tirar muitas belas conclusões. E a tua conclusão diz muito.... :) Obrigado por o partilhares.
      Fazes bem em estar e sentires assim e continua com essa ideia.
      Um sorriso. :)

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    3. A minha conclusão diz que só vivemos meia vida desta vida. A sua plenitude é incompleta por sermos escravos de valores que nos são impostos.

      Com tantos sorrisos fico mal habituado... ;)

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    4. Mas diz muito. Devemos aproveitar cada segundo da nossa vida, e por vezes podemos saltar esses valores impostos para sentir uma liberdade interessante. ;)
      Por acaso com o comentário que fez, fiquei a sorrir. :)

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    5. Os valores que falo não se podem saltar. Infelizmente.

      Ora que bom, uma mulher que sorri é um raio de deslumbre sobre a face de um homem. ;)

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    6. ah ok. Já percebi então os valores que falas. :)
      E para mim também é bom fazer alguém deslumbrar com o meu sorriso. ;)

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