terça-feira, 11 de março de 2014

Perfection

Uma antiga estação de comboio encoberta por escuras e pesadas nuvens numa triste manhã. Em redor da cobertura tudo está molhado, húmido e frio. Observo e espero.
Espero pela rotina que me apanha como em qualquer outro dia em que observo atentamente o avanço sistemático dos ponteiros no mostrador gigante. Serão eles a dar a partida para a viagem que sobre linhas duras de metal aqui se busca. Em redor, inúmeras caras desconhecidas sem traço definido, simples borrões negros sem interesse aos meus olhos. Todas menos uma. Ela.

Uma face que se me radia como um sol, nesta manhã ensombrada. De porte senhoril se apresenta, com o guarda-chuva pela mão, elegantemente se desloca entre os chuviscos. O chapéu que lhe protege da chuva os longos cabelos castanhos, camufla parte da sua beleza elementar e clássica. Mas ela está lá. Eu vejo-a.

Rosto sereno, olhos rasgados, lábios voluptuosos, corpo torneado, mãos delicadas. Calma, pensativa, séria. A mulher que sempre idealizo nas minhas mais extravagantes criações, reside neste preciso momento frente a mim. É inconcebível resistir à tentação de a observar, por mais ausente de cavalheirismo tal se revele.

Observo na ânsia de absorver dela todo e qualquer detalhe que resista para memória futura, enquanto o ponteiro não me diz que não mais me é permitido.


Fox

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