sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Dirty City





A cidade é suja, escura, violenta. 
Um local onde apenas os mais fortes sobrevivem e os mais fracos são facilmente subjugados e calcados pela própria circunstância da vida. Entre ruas e becos, ele deambula em busca de algo, mas sem saber bem do quê. Na maioria das vezes encontra problemas, mas esses nunca lhe meteram medo. A vida tornou-o forte desde tenra idade, quando aprendeu a viver nas ruas e das ruas, defendendo-se de todos aqueles que o queriam tornar num fraco. Mas a ele não conseguem. Nunca se deu ou dará como fraco. É um dos fortes, é superior, é branco. 

Independentemente da parte da cidade em que esteja, Kurt sente-se sempre sozinho. Sempre se sentiu assim. Talvez seja por isso mesmo que a sua personalidade se desenvolveu fechada, violenta, ensombrada por demónios que à noite o afligem. O passado não foi fácil para ele, mas não pensa nisso. Tenta não pensar nisso. Fica perturbado quando pensa nisso, e regra geral, algo de mau acontece quando se lembra desses tempos.

Cabelo rapado, barba hirsuta, roupa escura, botas de estilo militar, tatuagens tribais sobre a pele, semblante carregado, porte seguro e altivo, são aspetos capazes de caracterizar exteriormente Kurt. Pelo menos à primeira vista, são os elementos suficientes para um vulgar cidadão o julgar e prontamente se desviar do seu caminho. O seu rótulo tem apenas uma palavra escrita: problemas.

Desta celebre capacidade do humano em desenvolver preconceitos acerca de terceiros, resultam sempre olhares depreciativos e comentários sibilados entre dentes. Ele não valoriza questões mesquinhas, uma vez que já está habituado a esses julgamentos sumários e ignora-os. Tornou-se bastante bom a relativizar e ignorar tudo o que o rodeia para evitar chatices. Menos quando os problemas o perseguem, nesse caso, enfrenta-os. Uma das regras do seu código: nunca levar problemas para “casa”.

Na realidade, Kurt não tem casa. Não tem aconchego, não tem conforto, não tem proteção, em vez disso, ocupa um armazém abandonado. Nesse espaço desprezado, solitário e escuro, ele tenta criar uma ilusão de casa. Pelo menos até a polícia vir e expulsá-lo, tal como aconteceu diversas outras vezes, em diversos outros locais, em diversas outras cidades. Porém, a resiliência é uma característica que o assiste e se for corrido dali, procura um outro local e começa de tudo de novo. Para quem nada possui, não é muito difícil largar tudo e começar de novo noutro sítio.

Seria pior se existisse alguém mas Kurt não tem laços estabelecidos com nada nem com ninguém, nunca teve. Pelo menos não se lembra de ter tido, por isso, pode partir a qualquer instante sem pensar duas vezes. A única bagagem que transporta é aquela que o assombra de noite quando fecha os olhos para dormir.


Fox

2 comentários:

  1. Uma narrativa totalmente diferente das que costumas partilhar! Mas muito interessante. Gosto. 😊
    Como vês, superaste-te!

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