segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Dirty City III




Nunca foi muito falador, por isso, o dia-a-dia na oficina é silencioso como um cemitério, excetuando ocasionalmente o ronronar dos motores e o som das ferramentas a caírem no chão. Ao longo da sua vida habituou-se a apenas responder quando lhe fazem perguntas e pouco mais. Se Douglas pensou que com Kurt ia ter alguém com quem conversar, equivocou-se redondamente.

São estes biscates que faz em motores, numa oficina pouco limpa e um tanto duvidosa na orla oeste da cidade, não muito longe do seu armazém, que lhe dão o sustento para sobreviver. Ele gosta daquilo que faz. Sente-se calmo e a sua mente clarifica-se quando tenta concertar o que está estragado.

Normalmente sente-se bem a agredir e a destruir mas desde que encontrou Douglas e a sua imunda oficina, encontrou também uma parte de si. Uma faceta que desconhecia mas que o consegue complementar. De alguma forma, sente-se realizado em recuperar o que aparenta não ter reparação. Um pouco como ele próprio, um veículo sem conserto. Talvez seja apenas uma forma curiosa da vida ser irónica consigo.

Os seus dias começam cedo, levando-o a percorrer a pé todo o caminho sem ver viva alma durante todo esse tempo. Não é nada que o aflija, normalmente mantém-se afastado dos outros. Não gosta de dar confiança a ninguém, nem tão pouco é hábil com as palavras, por isso aprendeu que o melhor é estar calado.

Depois de mais um dia de trabalho, sem hora definida para tal, normalmente depende da decisão de Douglas, volta a efetuar o exato percurso inverso. Sem paragens nem distrações, de mãos nos bolsos e olhos na estrada, faz o seu caminho. O dia de hoje não foi exceção, já com o dia a escurecer, Kurt estava a arrumar ferramentas quando ouve algures na oficina a voz de Douglas.

- Kurt, antes de ires lava ali o Chevy. Vou ligar ao Jack para o levantar amanhã de manhã.

- Sim, senhor. – Responde tacitamente.

As lavagens não são a sua especialidade, nunca se deu bem a retirar a sujidade das coisas. Mas agora trata-se de uma das suas funções e a repetição apenas o fará ser cada vez melhor. Munido de balde e esponja, entrega-se à sua última tarefa do dia com redobrada energia. Já sente o cansaço acumulado espalhar-se pelos músculos mas a ideia de descansar no armazém parece-lhe cada vez mais atrativa e dá-lhe alento. Despachando as ultimas arestas das jantes e dando uma borrifadela de água com a mangueira, dá o trabalho como terminado.

- Já terminei. Posso ir? – Pergunta sobriamente.

- Sim. Até amanhã, Kurt. É melhor levares um guarda-chuva, tens ali muitos no escritório.

Mas ele já não estava lá para ouvir toda a frase de Douglas. Pegou no casaco e saiu para a noite. Tirou um cigarro e abrindo o zippo, criou a chama para o acender. A chuva caía com intensidade. Esta prometia ser uma noite fria, escura e molhada. Mas a chuva não mata, por isso, Kurt puxou o capuz do casaco sobre a cabeça e iniciou o seu caminho.


Fox

2 comentários:

  1. Pergunto-me como darás a volta ao texto, para o teu personagem revelar a sua natureza explosiva... ;)

    ResponderEliminar