segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Dirty City VI




Ainda sobre o corpo bastante maltratado do rufia, Kurt observa, sem nada em particular ver, as suas mãos pintadas de vermelho. Não se mexe um milímetro, parece perdido numa qualquer contemplação que ninguém entenderia. Uma mão trémula e ensanguentada deposita-se sobre o seu ombro, numa tentativa de o fazer acordar desta letargia em que se encontra.

- Senhor, pare por favor. Acho que já chega. – Diz uma mulher entre lágrimas.

- O quê? – Pergunta rudemente Kurt sem tirar os olhos das suas mãos vermelhas.

- O homem. Acho que já não se levanta mais.

Kurt ergue a cabeça para a mulher que o observava com olhos pesados de choro e a cara bastante inchada. Tem o olho esquerdo fechado e bastantes cortes na bochecha direita. Ainda não lhe havia visto a face, no meio da chuva tudo lhe parecia toldado. Ao vê-la, o seu olhar rapidamente assume uma expressão de repúdio, um quase ódio palpável. Ergue-se do chão e afasta-se do corpo imóvel coberto de sangue. Mas não antes de disferir um forte pontapé na cara do outro rufia ainda inconsciente no chão. Caminha pesadamente em direção à rua enquanto procura pelo casaco que largou junto dos caixotes de lixo na entrada do beco. Veste-o e encaminha-se para casa resmungando para consigo mesmo.

- Estúpido! Devias aprender a estar quieto! – Diz a si mesmo entre dentes.

- Espere. – Grita a mulher.

De Kurt não obtém resposta, nem sequer vê o seu passo ser abrandado. Simplesmente é ignorada. Sem desistir, tenta acelerar o andamento na ânsia de conseguir apanhar Kurt. Agarra-lhe por fim numa manga do casaco, pedindo novamente para esperar.

- Senhor, queria agradecer por… - Diz quase sem fôlego.

- Larga-me, preta! – Responde agressivamente Kurt com um ódio flamejante nos olhos.

A mulher fica especada no mesmo sítio como se enraizada no negro cimento do pavimento. De braços caídos, observa o desconhecido que a acaba de salvar, repudia-la pela sua cor de pele. Sente-se suja, quebrada, magoada. Não sabe o que lhe terá doido mais, se a agressão física ou a verbal. A chuva cai-lhe sobre a cara onde se mistura com as lágrimas que saem dos seus enormes olhos verdes. A sua roupa agora feita em farrapos expõe à luz do candeeiro a sua pele mestiça.


Fox

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