Torna-se quase desconcertante conseguir olhar profundamente num par de olhos claros. Por mais estranho que o pareça, uma vez que não são absolutamente diferentes dos castanhos ou dos pretos. Ainda assim, revela-se uma missão complicada.
Logo comigo que adoro olhar bem fundo nos olhos das pessoas.
Já se aperceberam da facilidade com que nesta era digital nos afastamos das pessoas?
Será verdade que conseguimos igualmente nos aproximar com relativa facilidade, por vezes em circunstâncias que nunca poderiam acontecer de outra forma, ainda assim, julgo que facilitamos imenso na hora de deixar de falar.
Afinal de contas, uma mensagem ou um e-mail não demoram mais de alguns segundos.
Pergunto-me se será receio ou preconceito, a condicionante que controla a incapacidade de aceitar uma dada pessoa pelo que ela é.
O discurso que todas utilizam é deveras eloquente mas a distância entre o que dizem e aquilo que fazem é avassaladora. Mais cedo ou mais tarde, os seus traços genuínos vêm ao de cima, expondo claramente o que realmente são e o que desejam.
Entre oito mil milhões de pessoas existentes neste planeta não seria presumível que fossemos todos um pouco diferentes? Então por que razão não somos aceites da mesma forma? É que não tenho dúvida alguma que se me inserisse num "determinado" modelo pré-definido teria muito mais "sucesso".
Ainda assim, mesmo apregoando que aceitam as pessoas pelo que são, manifestam uma grande tendência para procurarem encontrar sempre mais do mesmo... Na maioria das vezes penso que as pessoas desejam encontrar alguém que as encante mas somente se esta "vier" concebida de acordo com o modelo desejado. Tudo o que contradiga a "tal" conceção que idealizam, começa mais cedo ou mais tarde a ser desconsiderado.
Assim, surge-me sempre a mesma questão. Terão elas receio ou preconceito em relação ao que sou?
Em algumas ocasiões, o impulso sexual que sinto perante algumas mulheres é bastante complicado de controlar. Especialmente quando me apercebo de que elas se insinuam em demasia. De forma deliberada.
Nestas alturas mantenho sempre a faceta do cavalheiro por respeito à outra pessoa mas travo dentro de mim uma verdadeira luta titânica. Ontem foi mais um desses casos.
Os olhares, os toques, as aproximações... Custou mas consegui salvar a face e mantive a compostura, afinal de contas, nunca antes havia saído com ela.
Ainda assim, nunca sei bem o que será que elas prefeririam...
Estou tão habituado a elas que nem penso muito na enorme beleza que ostentam para quem as vê enquanto um todo. O enquadramento visual é bastante harmonioso e a sua materialização física foi muito bem conseguida. Sou um privilegiado.
Considerando que ando sempre completamente coberto pela roupa, raramente ficam expostas. Assim, torna-se curioso ver o efeito quase hipnótico que exercem em quem as vê de forma integral.
Ainda me estou a habituar à pergunta - Wow,o que representam?
Poderia ser este o mote para a publicação. Mas não é.
Desta vez tive a oportunidade de estar com uma mulher segura, experiente e louca. Verdadeiramente louca.
Uma que me fez pensar que um automóvel de mudanças automáticas seria interessante, uma vez que me deixaria a mão direita liberta... Ainda assim, consegui controlar perfeitamente a situação.
Está claro que é na companhia de mulheres assim que mostro as minhas cores e comporto-me como desejo. Sem condicionantes.
Por essa mesma razão, aviso com a devida antecedência como sou, de modo a evitar qualquer equívoco. Gosto de clareza e de mostrar como sou. Como me disseram uma vez - "És sincero. Deitas as cartas na mesa e só vai a jogo quem quer arriscar".
Mesmo assim, espicaçou-me com intenções x-rated como se eu fosse apenas mais um. Quando se providenciou uma hora H, mostrei as minhas cores e depois foi ver como tudo o que me havia sido dito não passava de palavras ocas...
Meninas, não confundam um lobo com uma ovelha. No momento do ataque ele rosna, não bale.
Aquele estranho momento em que se recebe dois convites para o mesmo dia, a mesma hora, e possivelmente, a mesma finalidade mas se acaba por não poder aceitar nenhum.
Logo num dia em que por uma qualquer razão desconhecida, nos encontramos particularmente endiabrados.
A noite está serena e estrelada. Sente-se no ar uma suave brisa de verão que entusiasma os sentidos e preenche a alma.
Na mesa, repousam ainda os indícios de um jantar íntimo, descontraído e feliz. As velas ainda ardem, emprestando ao ambiente uma iluminação ténue e bruxuleante. Por todo o espaço da casa propaga-se o som das baladas de ritmo latino e a expressividade da lírica repleta de sensualidade.
Lá fora, na varanda, ouvem-se risos e trocam-se olhares. Algures no fundo destes olhos que se cruzam, ardem chamas invisíveis que unem dois corpos. Ele estende a mão para ela e pede-lhe uma dança, sorrindo com o encanto singelo que possui. Ela acede ao pedido, sentindo-se verdadeiramente encantada.
Encaminham-se para a sala onde o som contagia e liberta os seus corpos. Ele puxa-a a si e envolve-a no seu abraço. Ficam apenas à distância de um sopro. Ele murmura umas palavras e entrega-se ao ritmo que o som lhe desperta no corpo. Ela deixa-se levar de olhos fechados e sorriso aberto.
O seu vestido rodopia e esvoaça num torvelinho de cor. De pés descalços, calcorreiam com graciosidade todo o espaço que têm disponível. Os olhos ardem de emoção e os sorrisos expressam a felicidade que a alma sente. Entregam-se um ao outro, confiando cegamente na naturalidade dos gestos com que se movem. A sensualidade e atração com que os seus corpos se mexem é luxuriante.
A música finda e os seus corpos abrandam o movimento. Transpirados, quentes e inebriados, abraçam-se de forma sentida. Ele olha-a nos olhos e diz-lhe tudo o que sente. Ela vê e compreende.
Não são precisas palavras, os corpos já disseram tudo.
Incontáveis são as palavras que se agregaram em frases que a devido instante exprimiram os pensamentos que me assolaram a mente. Receios, dúvidas e algumas certezas partilhadas com o mundo, como se não as fosse possível manter enclausuradas dentro de mim.
Escrevi. Li. Aprendi.
No início desta aventura estaria longe de imaginar este dia, ou qualquer outro que se encontrasse à distância de um olhar, mas agora será um hábito que se encontra de tal maneira enraizado em mim que chego a sentir falta de aqui escrever.
Os meus devaneios suscitaram diálogos e trocas de ideias que me permitiram viver estes seis anos na companhia de diferentes pessoas. Muitas foram as personalidades que por aqui passaram, sendo que algumas dessas ficaram, outras partiram com a mesma facilidade com que aqui chegaram. Ainda assim, todas deixaram um pouco de si e levaram um pouco de nós.
Já se aperceberam da facilidade com que conseguem sonhar com determinado assunto quando o abordam recorrentemente durante o dia?
Abordar aquele período da história recente foi meramente ilustrativo durante uma conversa mas acabei por pagar esse flashback com um sonho atribulado. Era desnecessário.