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quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Dance



A noite está serena e estrelada. Sente-se no ar uma suave brisa de verão que entusiasma os sentidos e preenche a alma.

Na mesa, repousam ainda os indícios de um jantar íntimo, descontraído e feliz. As velas ainda ardem, emprestando ao ambiente uma iluminação ténue e bruxuleante. Por todo o espaço da casa propaga-se o som das baladas de ritmo latino e a expressividade da lírica repleta de sensualidade.

Lá fora, na varanda, ouvem-se risos e trocam-se olhares. Algures no fundo destes olhos que se cruzam, ardem chamas invisíveis que unem dois corpos. Ele estende a mão para ela e pede-lhe uma dança, sorrindo com o encanto singelo que possui. Ela acede ao pedido, sentindo-se verdadeiramente encantada. 

Encaminham-se para a sala onde o som contagia e liberta os seus corpos. Ele puxa-a a si e envolve-a no seu abraço. Ficam apenas à distância de um sopro. Ele murmura umas palavras e entrega-se ao ritmo que o som lhe desperta no corpo. Ela deixa-se levar de olhos fechados e sorriso aberto. 

O seu vestido rodopia e esvoaça num torvelinho de cor. De pés descalços, calcorreiam com graciosidade todo o espaço que têm disponível. Os olhos ardem de emoção e os sorrisos expressam a felicidade que a alma sente. Entregam-se um ao outro, confiando cegamente na naturalidade dos gestos com que se movem. A sensualidade e atração com que os seus corpos se mexem é luxuriante. 

A música finda e os seus corpos abrandam o movimento. Transpirados, quentes e inebriados, abraçam-se de forma sentida. Ele olha-a nos olhos e diz-lhe tudo o que sente. Ela vê e compreende. 

Não são precisas palavras, os corpos já disseram tudo.


Fox

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Dirty City VI




Ainda sobre o corpo bastante maltratado do rufia, Kurt observa, sem nada em particular ver, as suas mãos pintadas de vermelho. Não se mexe um milímetro, parece perdido numa qualquer contemplação que ninguém entenderia. Uma mão trémula e ensanguentada deposita-se sobre o seu ombro, numa tentativa de o fazer acordar desta letargia em que se encontra.

- Senhor, pare por favor. Acho que já chega. – Diz uma mulher entre lágrimas.

- O quê? – Pergunta rudemente Kurt sem tirar os olhos das suas mãos vermelhas.

- O homem. Acho que já não se levanta mais.

Kurt ergue a cabeça para a mulher que o observava com olhos pesados de choro e a cara bastante inchada. Tem o olho esquerdo fechado e bastantes cortes na bochecha direita. Ainda não lhe havia visto a face, no meio da chuva tudo lhe parecia toldado. Ao vê-la, o seu olhar rapidamente assume uma expressão de repúdio, um quase ódio palpável. Ergue-se do chão e afasta-se do corpo imóvel coberto de sangue. Mas não antes de disferir um forte pontapé na cara do outro rufia ainda inconsciente no chão. Caminha pesadamente em direção à rua enquanto procura pelo casaco que largou junto dos caixotes de lixo na entrada do beco. Veste-o e encaminha-se para casa resmungando para consigo mesmo.

- Estúpido! Devias aprender a estar quieto! – Diz a si mesmo entre dentes.

- Espere. – Grita a mulher.

De Kurt não obtém resposta, nem sequer vê o seu passo ser abrandado. Simplesmente é ignorada. Sem desistir, tenta acelerar o andamento na ânsia de conseguir apanhar Kurt. Agarra-lhe por fim numa manga do casaco, pedindo novamente para esperar.

- Senhor, queria agradecer por… - Diz quase sem fôlego.

- Larga-me, preta! – Responde agressivamente Kurt com um ódio flamejante nos olhos.

A mulher fica especada no mesmo sítio como se enraizada no negro cimento do pavimento. De braços caídos, observa o desconhecido que a acaba de salvar, repudia-la pela sua cor de pele. Sente-se suja, quebrada, magoada. Não sabe o que lhe terá doido mais, se a agressão física ou a verbal. A chuva cai-lhe sobre a cara onde se mistura com as lágrimas que saem dos seus enormes olhos verdes. A sua roupa agora feita em farrapos expõe à luz do candeeiro a sua pele mestiça.


Fox

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Dirty City V




Frio espalha-se pelo seu estômago, calor sobe-lhe pelos membros, os olhos ficam vítreos, a mente rapidamente fica turva e negra. Ele sente o que aí vem e já sabe que não será bonito. Nunca o é. Abre o fecho do casaco e atira-o para cima de uns caixotes de lixo. Não precisa de se proteger do frio e muita roupa atrapalha o que aí vem. Caminha calma e decididamente em direção aos dois indivíduos, escutando a cacofonia de gritos que ecoam pelo beco e os sons de roupa a ser rasgada. Estalam-lhe a mente como se fosse feita de vidro. Ele só quer que pare.

Entretidos na sua ocupação, os dois rufias não se apercebem da sua presença até já estar sobre o pescoço do primeiro. Agarrando-o num poderoso movimento de mata-leão, afastou-o de perto da mulher que se debatia debilmente com mãos e pernas perante os seus agressores. O movimento causou espanto em ambos, que não haviam dado pela sua chegada.

- Grrrrr. Mas… Larga-me! – Grita desesperado, já a sentir o ar a escassear.

- Ei! Larga-o. Também queres um pouco disto é? Junta-te a nós. Ela chega para todos. – Diz o mais pequeno dos dois com um sinistro sorriso na cara.

Os olhos de Kurt estão escuros, vítreos e focados no rufia que se mantém na sua frente, enquanto aperta inexoravelmente o pescoço daquele que se encontra capturado na sua chave de braços. O seu rosto não exprime qualquer emoção. Debatendo-se contra o aperto que lhe rouba o ar dos pulmões, tenta em vão arranhar os braços de Kurt que não cedem um milímetro. A falta de oxigénio no cérebro leva-o a ficar rapidamente inconsciente e é atirado para o chão. Vendo a aflição do colega, o segundo rufia corre para Kurt com uma faca em riste e pronto a atacar, mas é recebido com um forte pontapé em pleno peito que o atira ao chão. Kurt afasta faça para longe com um pontapé. Sente a adrenalina a aumentar cada vez mais e salta sobre o rufia caído no chão disferindo soco atrás de soco, até a cara não parecer mais do que um enorme borrão escarlate.


Fox

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Dirty City IV




O cigarro é um dos poucos prazeres a que se entrega, sempre que tem condições financeiras para os poder comprar, claro. Quando mal tinha para comer, não se preocupava com cigarros. Não podia. A vida é constituída de prioridades e no que a isso se refere, Kurt sempre teve as suas bem definidas.

A pouco mais de meio ia o cigarro quando ao passar pelo beco da rua 59, ouviu os gritos. Não o fizeram parar, nem tão pouco abrandar o passo, a cidade é mesmo assim, pensou para si. Uns são fortes, outros são fracos, todos nós temos a nossa própria luta.

Mas o ruído aumentava cada vez mais, os gritos começavam a ser de facto horripilantes e desesperados. Tanto que surtiram nele uma ligeira curiosidade em espreitar o que se passava. Parou tentando vislumbrar entre a enorme quantidade de chuva o que se passava no fundo do beco.

- Socorro. Ajudem-me, por favor. – Gritava algures uma mulher.

- Tapa-lhe a boca! – Ordenou alguém.

- Shiuuuu, fofinha, não faças barulho. Ou obrigas-me a fazer-te um sorriso novo nessa cara tão bonitinha. - Disse outro numa tentativa de falso apaziguamento, enquanto lhe tapava a boca.

- Porra! A cabra mordeu-me! – Grita o segundo.

- Deixa-a comigo, eu já lhe mostro. – Diz o primeiro, pouco antes de lhe dar um soco na cara que a deixou perto da inconsciência.

Kurt observa a cena e debate-se interiormente. Os seus passos orientam-se em direção a casa mas rapidamente se voltam para trás e novamente em frente. Está indeciso, a sua mente funciona de forma acelerada. Quando imagina a sua luta pela sobrevivência, normalmente apenas considera a que ocorre entre homens, que tal como ele, procuram levar a sua vida o melhor que conseguem. Mas isto é diferente. Dois homens a agredir e tentar violar uma mulher, bem mais pequena em tamanho, não é de todo uma luta pela sobrevivência. Pelo menos, não a deles.


Fox

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Dirty City III




Nunca foi muito falador, por isso, o dia-a-dia na oficina é silencioso como um cemitério, excetuando ocasionalmente o ronronar dos motores e o som das ferramentas a caírem no chão. Ao longo da sua vida habituou-se a apenas responder quando lhe fazem perguntas e pouco mais. Se Douglas pensou que com Kurt ia ter alguém com quem conversar, equivocou-se redondamente.

São estes biscates que faz em motores, numa oficina pouco limpa e um tanto duvidosa na orla oeste da cidade, não muito longe do seu armazém, que lhe dão o sustento para sobreviver. Ele gosta daquilo que faz. Sente-se calmo e a sua mente clarifica-se quando tenta concertar o que está estragado.

Normalmente sente-se bem a agredir e a destruir mas desde que encontrou Douglas e a sua imunda oficina, encontrou também uma parte de si. Uma faceta que desconhecia mas que o consegue complementar. De alguma forma, sente-se realizado em recuperar o que aparenta não ter reparação. Um pouco como ele próprio, um veículo sem conserto. Talvez seja apenas uma forma curiosa da vida ser irónica consigo.

Os seus dias começam cedo, levando-o a percorrer a pé todo o caminho sem ver viva alma durante todo esse tempo. Não é nada que o aflija, normalmente mantém-se afastado dos outros. Não gosta de dar confiança a ninguém, nem tão pouco é hábil com as palavras, por isso aprendeu que o melhor é estar calado.

Depois de mais um dia de trabalho, sem hora definida para tal, normalmente depende da decisão de Douglas, volta a efetuar o exato percurso inverso. Sem paragens nem distrações, de mãos nos bolsos e olhos na estrada, faz o seu caminho. O dia de hoje não foi exceção, já com o dia a escurecer, Kurt estava a arrumar ferramentas quando ouve algures na oficina a voz de Douglas.

- Kurt, antes de ires lava ali o Chevy. Vou ligar ao Jack para o levantar amanhã de manhã.

- Sim, senhor. – Responde tacitamente.

As lavagens não são a sua especialidade, nunca se deu bem a retirar a sujidade das coisas. Mas agora trata-se de uma das suas funções e a repetição apenas o fará ser cada vez melhor. Munido de balde e esponja, entrega-se à sua última tarefa do dia com redobrada energia. Já sente o cansaço acumulado espalhar-se pelos músculos mas a ideia de descansar no armazém parece-lhe cada vez mais atrativa e dá-lhe alento. Despachando as ultimas arestas das jantes e dando uma borrifadela de água com a mangueira, dá o trabalho como terminado.

- Já terminei. Posso ir? – Pergunta sobriamente.

- Sim. Até amanhã, Kurt. É melhor levares um guarda-chuva, tens ali muitos no escritório.

Mas ele já não estava lá para ouvir toda a frase de Douglas. Pegou no casaco e saiu para a noite. Tirou um cigarro e abrindo o zippo, criou a chama para o acender. A chuva caía com intensidade. Esta prometia ser uma noite fria, escura e molhada. Mas a chuva não mata, por isso, Kurt puxou o capuz do casaco sobre a cabeça e iniciou o seu caminho.


Fox

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Dirty City II




Para conseguir fugir de alguns dos problemas que já teve na vida, foi necessário se manter completamente espartano, inclusive nas relações que estabelece com os outros. O seu jogo é o da sobrevivência, e para o conseguir, apenas precisa de se alimentar e dormir umas horas durante a noite, não necessita de estabelecer laços. Um qualquer local que o abrigue da chuva e do frio, passa a ser para ele um sumptuoso palácio a que chama de seu. E desses não faltam. Desde que a cidade começou a entrar em declínio com a crise na bolsa, muitos foram os que a abandonaram. Agora, o esplendor de outrora está a apodrecer e a criar durante esse processo, uma imensidão de locais desamparados. Sente-se em cada esquina, o aroma da solidão e da derrota.

O seu dia-a-dia é passado na procura ou realização de um qualquer ofício que lhe faça ganhar a vida. Muito mudou na sociedade mas ainda existe a necessidade de ter algo para usar como moeda de troca. Inúmeras foram as suas ocupações nos seus parcos vinte e três anos de vida. Ou serão vinte e cinco? Ele não tem certeza, pois já não os conta agora. Deixou de o fazer pela mesma altura em que se apercebeu não ser um dia tão especial quanto outrora julgou. Afinal era apenas mais um dia, um em que ninguém se lembrava dele. E isso de alguma forma magoava. Por isso deixou de os contar. Contar magoa.

Nos últimos meses tem ocupado o seu tempo como mecânico. Quer dizer, não teve instrução de nenhuma ordem, por isso não pode envergar esse título, mas faz o que lhe mandam e por vezes mexe nos motores, tal como vê o patrão a fazer. Douglas parece ser um bom profissional e um homem que não lhe trará problemas. Não lhe colocou questões acerca de si ou do seu passado, apenas lhe deu a oportunidade de provar que consegue trabalhar. E ele consegue fazê-lo, arduamente. É tudo o que Kurt precisa neste momento, de uma forma de sustento e de poucas perguntas.

Fox

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Dirty City





A cidade é suja, escura, violenta. 
Um local onde apenas os mais fortes sobrevivem e os mais fracos são facilmente subjugados e calcados pela própria circunstância da vida. Entre ruas e becos, ele deambula em busca de algo, mas sem saber bem do quê. Na maioria das vezes encontra problemas, mas esses nunca lhe meteram medo. A vida tornou-o forte desde tenra idade, quando aprendeu a viver nas ruas e das ruas, defendendo-se de todos aqueles que o queriam tornar num fraco. Mas a ele não conseguem. Nunca se deu ou dará como fraco. É um dos fortes, é superior, é branco. 

Independentemente da parte da cidade em que esteja, Kurt sente-se sempre sozinho. Sempre se sentiu assim. Talvez seja por isso mesmo que a sua personalidade se desenvolveu fechada, violenta, ensombrada por demónios que à noite o afligem. O passado não foi fácil para ele, mas não pensa nisso. Tenta não pensar nisso. Fica perturbado quando pensa nisso, e regra geral, algo de mau acontece quando se lembra desses tempos.

Cabelo rapado, barba hirsuta, roupa escura, botas de estilo militar, tatuagens tribais sobre a pele, semblante carregado, porte seguro e altivo, são aspetos capazes de caracterizar exteriormente Kurt. Pelo menos à primeira vista, são os elementos suficientes para um vulgar cidadão o julgar e prontamente se desviar do seu caminho. O seu rótulo tem apenas uma palavra escrita: problemas.

Desta celebre capacidade do humano em desenvolver preconceitos acerca de terceiros, resultam sempre olhares depreciativos e comentários sibilados entre dentes. Ele não valoriza questões mesquinhas, uma vez que já está habituado a esses julgamentos sumários e ignora-os. Tornou-se bastante bom a relativizar e ignorar tudo o que o rodeia para evitar chatices. Menos quando os problemas o perseguem, nesse caso, enfrenta-os. Uma das regras do seu código: nunca levar problemas para “casa”.

Na realidade, Kurt não tem casa. Não tem aconchego, não tem conforto, não tem proteção, em vez disso, ocupa um armazém abandonado. Nesse espaço desprezado, solitário e escuro, ele tenta criar uma ilusão de casa. Pelo menos até a polícia vir e expulsá-lo, tal como aconteceu diversas outras vezes, em diversos outros locais, em diversas outras cidades. Porém, a resiliência é uma característica que o assiste e se for corrido dali, procura um outro local e começa de tudo de novo. Para quem nada possui, não é muito difícil largar tudo e começar de novo noutro sítio.

Seria pior se existisse alguém mas Kurt não tem laços estabelecidos com nada nem com ninguém, nunca teve. Pelo menos não se lembra de ter tido, por isso, pode partir a qualquer instante sem pensar duas vezes. A única bagagem que transporta é aquela que o assombra de noite quando fecha os olhos para dormir.


Fox

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Writing VII


Uma tarde cinzenta, vestida de frio e perfumada de maresia. 
É teu, o sabor da melancolia e o pensamento omnipresente da solidão. 
Chamas aqui, aqueles que partilham de um mesmo sentimento opressivo, em busca de respostas que nunca obterão.
No entanto, insistem com afinco e dedicação, recebendo como único prémio, a imagem de uma água azul que se esbarra nas pedras com a força de um trovão. 
Fatigados e aborrecidos na sua desilusão, partem sem mais respostas do que aquelas que já traziam a pesar no coração quando aqui chegaram.


Fox

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Writing VI


Que nunca seja eu conhecido por não respeitar todos os princípios que me assistem a personalidade.
De máscaras frias e escuras já esta sociedade está repleta, sendo escusada uma qualquer que pudesse eu envergar. 
Prefiro chamar à minha responsabilidade, o risco de ser visto como "persona non grata", do que perder o traço identitário único e intransmissível que me forma. 
Ainda que seja eu acompanhado por poucas pessoas ao longo deste meu percurso, espero que se revejam em mim pelos meus princípios superiores de sinceridade e veracidade. 
Não me incomoda dececionar terceiros, contudo, nunca toleraria dececionar a minha própria pessoa.


Fox

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Smile to me

Sorri.

O sorriso dura um momento. Mero instante efémero em que tudo mais parece desaparecer e o acontecimento é vivido em plena felicidade. Será esta valência que o caracteriza como desejável, especialmente quando não o temos ao alcance de um olhar. 

Sorri para mim.

Observar outros a sorrir não atenua a ausência que no nosso íntimo sentimos. Não é nosso aquele sorriso, apesar de nos ser visível. A insignificância de alguém nos sorrir, enche-nos o interior com a luz de mil sóis, porém, a vulgaridade de o recebermos não é igualável ao seu parco custo.

Sorri por mim.

De irrisório valor pode ser um sorriso, especialmente se não for sincero. Aquele que se afigura como genuíno, é valioso tanto na sua concepção quanto na sua demonstração. Sentir que somos o alvo de um sorriso ou ainda, que somos a razão da sua geração, será um domínio deveras inexplicável.

Percam um momento para sorrir. Para alguém. Por alguém.


Fox

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Echo

Entre nuas paredes que não libertam uma palavra, escuto o silêncio do meu eco. Liberto-o sem mexer os lábios ou encetar qualquer movimento. Nada faço para que ele surja, mas de alguma forma ele está lá, sente-se. 

É escuro. É frio. É medonho.


Quase palpável é a sua substância mas se a tentar inutilmente agarrar no fino ar que me rodeia, ficarei com uma mão-cheia de nada. Disso apenas se trata, uma enorme quantidade de nada.


Fox

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Writing. Plus one

Após algum tempo desde a última vez que o fiz, recebi uma proposta de desafio para este inicio de ano. Outra leitora decidiu que eu poderia ser alguém interessante para delinear umas ideias sob a forma de algumas linhas. Estou curioso para descobrir o que irá surgir da criatividade desta parceria. Logo veremos que género de texto poderá sair daqui...

Certamente serão vocês a avaliar o resultado final. Fiquem por aí.


Fox

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Logic

Percorro este meu trilho sinuoso sem mapa nem orientação. 
Não sei onde me leva pois o amanhã é escuridão, mas o hoje é encoberto e assim vou caminhando. Sozinho, trago como companhia a minha consciência, eterna acompanhante racional que faz de mim aquele que à lógica tudo dedica. Contudo, algo está em falta, uma parte que se revela como ausente. Mas esta ausência que se evidencia não deve razões à razão, é a própria emoção que em mim vive pálida que anseia por uma explosão. Uma deflagração de sensações que a razão ou a lógica não consigam nada dela explicar. Pois não desejo raciocinar apenas sentir.


Fox

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Presence

Sinto-te.

Sinto-te como um suave perfume que docemente me beija a pele.
O teu aroma inunda-me os sentidos mas não o consigo ver.
Sei que esta lá mas não está presente.
Em dias cinzentos assemelha-se apenas a uma ilusão real.
Em dias luminosos quero-o agarrar para o poder fazer meu.
Mesmo sem estares presente de forma corpórea.

Sinto-te.


Fox

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Lovers

O sol ilumina o verde que se espalha pelo chão.
Tudo em redor brilha num suave tom dourado.
Folhas pairam desgovernadas ao sabor de uma pequena brisa.
Árvores dançam num ritmo calmo que não as desloca.
Dois vultos sentados no banco estão imóveis como estátuas.
Entre si palavras não são ouvidas.
Nem gestos são notados.
Apenas olhares e sorrisos são mostrados.
O mais perfeito momento entre dois amantes é visto no silêncio.


Fox

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Moment

É uma estranha sensação, aquela em que durante um momento especial nos perguntamos se será mesmo real. Instintivamente temos a noção de que um acontecimento é efémero e como tal, ocorre e esvanece. Assim, tentamos perpetuar o momento mas a ampulheta não cessa a queda dos grãos de areia e tudo o que resta é uma recordação viva na memória. É uma pobre sombra do colorido filme que se viveu mas é o suficiente para alimentar a pequena chama que grassa por um novo momento.


Fox

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Half smile

Um meio sorriso esboçado.
Um fio de cabelo caído.
Um olhar capturado.

A ternura do seu rosto conquista-me sem oposição. A beleza da sua alma prende-se sem correntes. Não quero resistir, não quero fugir. Quero apreciar. Quero o poder de parar as areias do tempo e as horas domar. Para entre suspiros e murmúrios apenas a apreciar.


Fox

domingo, 15 de setembro de 2013

Feel

Dias existem em que a alma clama por aquilo que o corpo não recebe, mas que a mente mostra em difusas imagens quase sensoriais. 

Expande-se aquele desejo ardente em sentir...

A doçura de um olhar.
A suavidade de um toque. 
A humidade de um beijo.
A cumplicidade de um corpo.

A entrega sem receios ou fronteiras, sem tabus ou preocupações. Deixar cair a máscara e ser apenas quem se é. Nú e sem a proteção da armadura que diariamente escuda sentimentos e emoções. Esquecer a regência do tempo e saborear o momento pelo que é. Uma intrínseca partilha de sensações e emoções.


Fox

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

City

Alguma sensação mágica e indescritível existe entre estas gigantescas paredes que me abraçam.
Uma aura eterna de encanto e romance está incrustada na brancura da pedra fria dos edifícios que longas décadas viram passar pela calçada. 
Por cima dos seus topos passam os raios do sol que me tocam a face, me aquecem o corpo e me iluminam a alma. 
Sentado num qualquer pedaço deste chão, inunda-me interiormente uma tranquilidade que me troca a palavra pela observação. 
Já tudo isto vi por inúmeras vezes, sem saturação ou cansaço possível de se abater sobre elas mais ainda as desejo ver.

Nestas ruas deambulo por deambular, sem rumo ou destino ter, apenas pelo prazer de aqui vaguear e a ela pertencer. 


Fox

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Loneliness

A solidão está escrita na cara daquele que não encontra a felicidade em si próprio. 
É um penoso estado que se instala e lhe rouba toda a luz do seu espírito. 
Torna deste modo, a mais bela criatura numa mera carcaça que deambula e se movimenta autonomamente. Sem radiância nem vitalidade, procura algo que o salve desconhecendo que a salvação reside em si mesmo.
Pode-se passar toda uma vida neste estado, mas até ao esgotar de toda a sua essência terá de efetuar a descoberta por si só. Apenas assim, conseguirá evitar o risco de se esvanecer nos braços da fria solidão.


Fox